O uso de calças pela mulher católica

​Hoje vamos falar acerca de um assunto bastante espinhoso e que tem gerado não poucas dissensões no universo da moda e da modéstia. Afinal, moças cristãs podem usar calça sem ferirem o pudor?

Temos observado o recente incremento de grupos de católicas que pretensiosamente se arrogam o direito de estabelecerem normas herméticas para as vestimentas femininas. Acredito que isso decorra de uma tentativa de resposta ao império do hedonismo e do relativismo moral que vêm se estabelecendo entre nós nos últimos decênios, com reverberações também no campo da moda, de tal maneira que verificamos, com efeito, mulheres que se vestem com desmedido apelo sensual. Contudo, o fato é que o Sagrado Magistério eclesiástico jamais emitiu qualquer documento legiferando sobre as características e minúcias da indumentária dos leigos. E não emitirá, porque este assunto não é objeto da “jurisdição” do Magistério. 


O que compete à Igreja é ensinar, em conformidade com as fontes de Revelação (Sagrada Escritura e Sagrada Tradição) os preceitos da Moral, que é, per si, atemporal e absoluta. A modéstia em si, entendida em seu conceito original, isto é, compreendida como a reta medida das coisas – e resultante da virtude cardeal da temperança –, é também absoluta e atemporal. Entretanto, a aplicação dos princípios da modéstia deve levar em consideração as circunstâncias do tempo, da cultura e do lugar em que estamos. Naturalmente, o modo de nos vestirmos deve refletir essas ponderações. Já pensaram, por exemplo, se decidíssemos todos nos vestir como na época de Jesus? Homens e mulheres usariam túnicas, e as mulheres ainda andariam sempre com a cabeça coberta por um véu. E se quiséssemos usar na Santa Missa a mesma vestimenta que colocamos para a praia ou a academia? É evidente que seria inapropriado. A cultura de um povo também influencia a forma como as pessoas se vestem. Na Escócia, os homens usam kilt, um traje que se assemelha a uma saia, e isso é perfeitamente natural na cultura escocesa. Para nós, essa prática soaria estranha. 


Portanto, uma determinada peça de vestuário pode ser considerada modesta ou imodesta dependendo da época, da ocasião ou dos costumes daquele círculo social em que vivemos. Essa ideia é corroborada em São Francisco de Sales, doutor da Igreja, em seu livro Filoteia ou Introdução à vida devota: “No tocante à matéria e à forma dos vestidos, a decência só se pode determinar com relação às circunstâncias do tempo, da época, dos estados ou vocações, da sociedade em que se vive e das ocasiões.”(Parte III, cap. XXV, p. 235). Entretanto, não estou afirmando que seja adequado nos vestirmos de qualquer modo, conforme nos aprouver, sem nos preocuparmos com a decência e o recato. É verdade que a impudicícia de algumas roupas se faça notar, indubitavelmente, por salientarem em demasia as formas do corpo ou revelarem partes pudendas, o que incita apetências sexuais desordenadas. Uma calça colante ou uma saia curtíssima, por exemplo, sempre atentarão contra o pudor e a dignidade da mulher, a qual deve ser enxergada como “objeto” de amor, não de desejo. O que estou querendo dizer é que devemos evitar impor uma absolutização de regras de “pode” e “não pode” para as vestes. O erro não consiste apenas em relativizar o que é absoluto, mas também em absolutizar o que é relativo.

O que seria absoluto nessa seara das vestimentas? Vejamos.

Na Sagrada Escritura, o hagiógrafo nos diz: “A mulher não se vestirá de homem, nem o homem se vestirá de mulher: aquele que o fizer será abominável diante do Senhor seu Deus.” (Dt 22, 5).

Na mesma linha, Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, assevera na Summa Theologica

O ornato exterior [vestuário] deve corresponder à condição da pessoa, em conformidade com o costume geral. Por isso e em si mesmo, é pecaminoso uma mulher trazer trajos viris ou vice-versa; e sobretudo, porque pode ser essa uma causa de lascívia. Isso é expressamente proibido pela Lei, porque os gentios usavam desses travestimentos pela superstição idolátrica. (S. Th. II, II, q. 169, a. 2, resposta à objeção 3).

Percebemos, destarte, que o ensinamento absoluto aqui é que as vestimentas respeitem a modéstia e que haja distinção entre os trajes masculinos e femininos. Mas qual é o conceito de traje masculino e traje feminino? Existe a esse respeito um conceito imutável e intransponível? O que me permitiria inferir, por exemplo, que a calça seja uma roupa exclusivamente masculina?


Uma exegese mais acurada do texto sagrado supramencionado, bem como a análise de seu contexto histórico, nos permite concluir que a lei de Moisés não tinha em vista ab-rogar o uso desta ou daquela específica peça do vestuário. Não há minúcias sobre isso. O objetivo do autor inspirado era condenar os abusos ocasionados pela utilização de certos trajes em cultos pagãos, principalmente dos cananeus, que favoreciam os vícios, a imoralidade e a idolatria. Não raro, as “prostitutas sagradas” (hieródulas) – como eram chamadas as mulheres que serviam o templo dos gentios realizando práticas sexuais em homenagem aos deuses da fertilidade – se travestiam com roupas e insígnias masculinas para o culto. Essas práticas começaram a influenciar o povo de Israel, a tal ponto que a lei mosaica proibia enfaticamente a presença de hieródulas entre os hebreus (Cf. Dt 23,17s).

É, portanto, em consonância com esse preceito veterotestamentário que Santo Tomás explicita o motivo da proibição de uma pretensa equalização das vestes. Porém, observem que o Aquinate, no mesmo texto que transcrevemos acima, flexibiliza a aplicação das regras do vestuário à condição da pessoa e em conformidade com o costume geral.

Aqueles que se opõem de maneira contumaz a que mulheres usem calças objetam que estas: 1) atentam contra a decência; 2) levam à masculinização da mulher (por considerarem-na como roupa de homem); e 3) alteram a psicologia feminina. 

Passemos, pois, a examinar as objeções aduzidas.

Não é verdade que a calça feminina contraria as “regras” da modéstia. Há diferentes tipos de calça e algumas delas realmente são indecorosas. Mas é perfeitamente possível que a mulher use uma calça sem, contudo, marcar excessivamente suas formas. Calças de alfaiataria, pantalonas, sociais e até mesmo algumas calças jeans podem ser mais folgadas e preservar o recato.

 

E ainda que uma calça seja mais justa (legging, skinny, montaria, etc.), é possível usá-la, contanto que as curvas da mulher não sejam muito sobressalentes e que se cubra o bumbum com uma camisa mais comprida, um blazer ou casaco longo. No entanto, aqui é preciso ter bastante cautela para não cair no sensualismo nem vulgaridade, o que além de contrariar a verdadeira elegância também compromete a beleza do look. É de muito mau gosto uma mulher “turbinada” usar roupas colantes. Ademais, isso constitui uma enorme falta de caridade para com os homens, que são naturalmente mais visuais, por incitar neles a voluptuosidade e o pecado.


Quanto ao argumento de que as calças masculinizam a mulher, respondemos que isso dependerá do estilo e do corte da peça. A maioria das calças femininas são visivelmente distintas das masculinas. Certamente, parecerá muito estranho se eu resolver sair por aí usando as calças do meu irmão e ele, as minhas (que, aliás, são bastante femininas). Recentemente, porém, está em voga uma eclosão de modelos de calças ditas masculinas que chegam a ser ridículas, por serem excessivamente justas e coloridas. Algumas calças boyfriend para mulheres também podem conferir uma aparência mais viril. Daí, é possível que esteja havendo uma violação do mandamento bíblico. Mas, no geral, o formato das calças concebidas para homens ou para mulheres deixa evidentes as diferenças entre os sexos. Além disso, as mulheres costumam usar adereços que imprimem mais feminilidade à composição.

 

 

A terceira objeção relaciona-se com a segunda e dela, de certo modo, depende. Porquanto conseguimos refutar que as calças femininas não virilizam a mulher, não há razões para crer que o seu uso possa alterar a psicologia desta. Qual é a mulher que, no pleno domínio de suas faculdades mentais, se consideraria mais “homem” pelo simples fato de estar usando uma calça, a menos que esta apresente um corte eminentemente masculino? É bem verdade que o conceito de identidade de gênero em nossos dias vem sendo interpretado como algo fluido e volúvel, em virtude do surgimento da ideologia de gênero. Mas convenhamos que atribuir a causa dessa ideologia à forma como as pessoas se vestem seria um juízo apriorístico e reducionista, embora ela possa afetar – como consequência – as características distintivas da indumentária. Porém, isso é tema para outra discussão. O fato é que nenhuma mulher se olha no espelho e diz a si mesma: “Bem, sinto-me especialmente masculina porque estou usando uma calça”. Nem há evidências para crer que isso ocorra no nível do subconsciente. Eu continuo me sentindo feminina quando estou vestindo uma calça. E todas as mulheres que conheço também. E isso porque na cultura ocidental, a calça, em decorrência do seu uso natural e amplamente aceito, deixou de representar uma distinção dos sexos, de modo que se for modesta, não atrai para si a atenção, nem tampouco excita os sentidos. 

Contudo, eu adoro saias e até as prefiro às calças, e penso, inclusive, que aquelas exaltam a feminilidade de modo mais profícuo do que estas – o que não equivale a dizer que a calça suprime a feminilidade.As predileções individuais, porém, não são o foco desta questão. Podemos preferir usar saias – ou calças – e evocar para isso razões legítimas e ponderadas. O que não devemos fazer é “demonizar” o uso, como tal, da calça sob a alegação de que esse uso, por si mesmo, constitua um erro que viola o pudor e a dignidade da mulher e por isso é condenado pelo Magistério eclesiástico. Já vimos que não é assim. 


Existem, com efeito, documentos magisteriaisque abordam o tema da modéstia no vestir, entretanto na maioria deles não há sequer menção às calças. Exemplos desses textos são algumas Alocuções e Discursos dos Papas Pio XII e Bento XV endereçados a um público específico. Não obstante esses documentos não constituam pronunciamentos do Magistério Extraordinário (infalível) nem do Magistério Ordinário Universal (igualmente infalível), restando, por óbvio, tratar-se do Magistério Supremo Autêntico (que não pressupõe a infalibilidade), prestamos o nosso assentimento da inteligência (assensum intellectus) às orientações dos soberanos Pontífices. Insistimos, no entanto, em afirmar, que nenhum deles jamais condenou o uso da calça feminina, mas apenas nos apresentam princípios norteadores para o vestir. Vejamos o que disse Sua Santidade o Papa Pio XII no Discurso aos participantes do I Congresso Internacional de Alta Costura, em 8 de novembro de 1957: “A Igreja, portanto, não reprova nem condena a moda [grifo nosso], quando é destinada ao justo decoro e ornamento do corpo; todavia não deixa nunca de pôr em guarda os fiéis contra os seus fáceis desvios”. O mesmo Pio XIIexortara, em 22 de maio de 1941, no Discurso às Delegações Juventude Feminina de Ação Católica:

Mesmo seguindo a moda, a virtude está no meio. Aquilo que Deus pede é recordar sempre que a moda não é, nem pode ser a regra suprema da conduta; que acima da moda e de suas exigências existem leis mais altas e imperiosas, princípios superiores e imutáveis, que em nenhum caso podem ser sacrificados ao talante do prazer ou do capricho, e diante dos quais o ídolo da moda deve saber inclinar a sua fugaz onipotência. 

Endossamos, portanto, que os documentos pontifícios não se prestam a emanar proibições de determinado artigo de vestuário, mas a fazer um apelo ao pudor e a modéstia, que, em todo caso, devem sobrepujar à moda em si mesma, embora esta também não seja condenada e, sim, os seus desvios. Os princípios cristãos que iluminam nossas decisões no vestir e no agir são imutáveis, mas a forma de aplicá-los, contanto que preserve sua essência, mudará conforme as circunstâncias: in necessariis unitas, in dubiis libertas (no essencial, a unidade; nas coisas duvidosas, liberdade).  

Os adversários das calças femininas, para sustentarem sua posição contrária ao uso dessa vestimenta, mencionam ainda a Notificação do Cardeal Giuseppe Siri (1960), concernente às mulheres que vestem roupas masculinas, e o livro Marylike Modesty Handbook (Guia Mariano de Modéstia), do Padre Bernard A. Kunkel, fundador da Cruzada de Maria Imaculada pela Pureza. 

Devemos reconhecer que em ambos os textos, o do Cardeal Siri e o do Pe. Kunkel, há citação expressa das calças. E não desmereceremos suas prédicas, decorrentes de seu munus docendi (poder de ensinar). Todavia, devemos fazer notar que essas orientações (que não detêm a prerrogativa de infalibilidade) foram escritas para um público específico e numa época específica. Na ocasião e na cultura em que foram escritos esses textos, o uso de calças pelas mulheres era considerado incomum e representava uma espécie de rebeldia, de rebelião contra os costumes. E nessas circunstâncias, essa prática era considerada imodesta. E é o mesmo Padre Kunkel a afirmar em seu livro que “o costume pode e define o tipo de vestimenta própria para cada sexo.” (p. 18). Logo, nem ele vaticina um tipo de veste privativa ao homem ou à mulher.

“Mas Nossa Senhora não usaria calça”, retorquem os opositores da calça. Ora, a Santíssima Virgem, em toda a sua excelsitude, jamais pretendeu se destacar dos costumes de seu tempo. Em sua discrição e modéstia, sempre viveu como uma verdadeira hebreia virtuosa, distinguindo-se das demais criaturas por ser plena da graça e isenta de toda mácula do pecado e não pela adoção de alguma externalidade que a pusesse em evidência. Se, por uma espécie de saudosismo diletante, decidíssemos nos vestir como os primeiros cristãos, os homens é que hoje que nos pareceriam efeminados. Seria um anacronismo tacanho.  


Os santos, embora sempre tenham preservado a virtude da modéstia, também não se distinguirem de seus contemporâneos pelas vestes. Assim, podemos citar Santa Gianna Beretta, que respondeu tão generosamente à vocação de esposa e de mãe e defendeu tão incansavelmente o valor da vida que sacrificou a sua própria, cônscia dos riscos que corria, para dar à luz a um bebê. Sua vida e sua morte são testemunho do seu incomensurável amor a Cristo. Essa mesma mulher, cuja alma foi alçada ao tálamo celestial, usava calças compridas. A bem-aventura Chiara Luce Badano, do Movimento dos Focolares, também usava.

Ainda que saibamos que os santos não foram indefectíveis, será que deveríamos supor que a Igreja canonizaria ou beatificaria alguém que, flagrantemente, viveu uma vida de imodéstia e que não deve ter tomado Nossa Senhora como modelo?
 
 

Podemos ser virtuosas e modestas usando calças. Conheço várias mulheres que o são. Boas filhas, esposas exemplares, mães dedicadas, cristãs devotas… O uso da calça não deprecia as virtudes da mulher. 

E se é verdade que as calças a deixam mais atraentes – do que modestamente discordo –, não existem razões para se lhe opor o uso, pois não há problema algum em que as mulheres estejam fisicamente cativantes e atraentes. Enxergar aqui um problema é como que aderir a uma espécie de catarismo, de puritanismo estético.


Para finalizar esse texto que já vai muito extenso, transcrevo uma citação da amiga Aline Brodbeck, esposa e mãe de quatro filhos e dona do Blog Femina:

A absolutização das vestes, como se mulheres sempre devessem usar saias e vestidos, lhes sendo vetadas as calças, ignora as diferenças regionais e temporais. Nem sempre a mulher – e mulher cristã, mulher modesta, mulher de bons costumes – vestiu a mesma coisa. A modéstia não muda. A aplicação de suas regras às roupas muda, e muda porque mudam as roupas, mudam os costumes, mudam os cortes, mudam até os corpos. Dogmatizar a indumentária tem raízes não só no gnosticismo, mas em um etnocentrismo.

(Disponível em: Blog Femina: Pode uma mulher cristã usar calças?). 

 ​É isso, então, meninas. Sei que a leitura pode ter ficado cansativa, mas dada a relevância e complexidade do tema, decidi abordá-lo de modo exaustivo mesmo. Espero que lhes seja útil. Até a próxima!

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