Por que ter filhos?

A maternidade vem aos poucos. Primeiro, o início da gestação: sonhos destruídos, novos sonhos, ansiedade esmagadora, o corpo não é só meu. Depois de alguns meses, fim de gestação: dores imensas, alegria sem fim, orçamento apertado, preparativos, preparativos, preparativos, apocalipse. E após o parto, um mundo de descobertas e sensações novas: você descobre que não vai conseguir estudar tão cedo, descobre o quanto é capaz de ficar sem dormir, descobre o quão dolorosa a amamentação pode ser- e também descobre que tudo isso vale a pena, quando aquele serzinho minúsculo e chorão se aconchega no seu colo com um sorriso e toca seu rosto com aquela mãozinha úmida e rosada.

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Quando nasce seu primeiro filho, você entende, num golpe cortante de lucidez forçada, porque tantos milhões de dólares são repassados, de forma ilegal, à Planned Parenthood todos os anos. Entende também a grande proeminência que a bandeira abortista angariou nas agendas de todos os movimentos de esquerda aqui do Brasil, desde o início do primeiro mandato do ex-presidente Lula. É claro como o dia: a maternidade salva a mulher.

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Não me refiro especificamente à economia salvífica da Igreja; a salvação que a maternidade opera é a salvação da mulher inteira- a mulher imperfeita, a mulher no mundo, a mulher e sua circunstância. O mundo da mãe não gira em torno dela mesma, com suas necessidades e desejos naturais; gira em torno do filho, desdobrando-se em mil caminhos e pequenos mundos até então desconhecidos, que a mãe desvela ou cria sozinha para melhor amar sua criança. E é um amor tão sublime e imenso, tão real e palpável, que a mãe se sente capaz de tocar o Céu com a ponta dos dedos. Mesmo a ateísta mais convicta dobra os joelhos numa oração muda diante do berço, durante a primeira febre do bebê; e mesmo o mais amargo dos corações se enternece quando ele sente as primeiras cócegas e gargalha deliciosamente com aquela boca banguela.

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A mãe não pode mais ser enganada a respeito de sua missão e natureza feminina, como a jovem solteira que se divide entre a faculdade e o trabalho, num estímulo enlouquecedor para competir com o homem, libertar-se do homem e temer a submissão. A mãe não teme a submissão e a entrega, porque descobre na doação incessante de si mesma a maior delícia de que é capaz. E é uma entrega tão perfeita, tão completa, que raramente tem consciência de si sem o estímulo externo de algum parente ou amigo próximo, que segure docemente a mãe sonolenta pelo braço e diga: “Descanse um pouco, querida. Você está de pé desde as 4:30.”

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Ser mãe é aprender o amor de Deus. E o amor de Deus é sempre um mergulho profundo e definitivo na Verdade. A maternidade é exatamente isso: o mergulho que a mulher dá no oceano da própria verdade, na concretude da própria vida, nas águas profundas das verdadeiras necessidades femininas, escondidas do primeiro olhar pela agitação débil das águas da superfície, promovida pelo mundo e suas muitas vozes. E a mais irônica- e maravilhosa- revelação que a maternidade traz é esta: no centro da nossa felicidade não está a busca desenfreada da autopromoção e do prazer, mas a busca do outro, num ativo despojamento do nosso egoísmo natural para uma entrega serena e santificante. É o que afirma São João Paulo II, na Carta Apostólica De Mulieris Dignitatem (1998, p.22):

O dom recíproco da pessoa no matrimônio abre-se para o dom de uma nova vida, de um novo homem, que é também pessoa à semelhança de seus pais. A maternidade implica desde o início uma abertura especial para a nova pessoa: e precisamente esta é a « parte » da mulher. Nessa abertura, ao conceber e dar à luz o filho, a mulher « se encontra por um dom sincero de si mesma ».

Assim como a terra esconde sua fertilidade do pastor nômade, para se entregar às mãos calejadas do agricultor experiente, que doa a ela sua vida e banha seu regaço com o próprio suor, a verdadeira vida se esconde do aventureiro que pretende provar dela os primeiros frutos de prazer, sem nela mergulhar por inteiro e a ela sacrificar sua força e juventude. A mulher que se abre à maternidade segundo os planos de Deus, a exemplo de Nossa Senhora, doando seu corpo, tempo, dinheiro e energia todos os dias, descobre a si mesma na alegria do amor infinito, no espelho do mesmo amor com que é amada pelo Deus eterno.

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Se há sofrimento, se há medo do futuro ou dificuldades financeiras, há também a Graça e a Fortaleza de Deus, com as quais tudo pode ser superado. A alegria de ser mãe vence o mundo e a carne: é por isso que os inimigos de Cristo lutam em numerosas frentes contra a maternidade e a unidade familiar. Porque aquelas que seguem o exemplo de Maria Santíssima, ainda que muito imperfeitamente, tomam sobre si as consequências da decisão do Senhor a respeito da serpente, exposta no Livro do Gênesis (Gn 3,15): “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela”.

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Sejamos mães! Não para aplacar nossa carência afetiva e nossa solidão, ou para garantir uma velhice mais próspera- acredite, filhos não são planos de previdência privada ou bichos de estimação-ou para conquistar qualquer glória mundana, mas num gesto de gratidão imensa ao Deus que nos deu a vida e a redenção, entregando-nos inteiramente em amor e zelo por aqueles que nos foram confiados: nossos filhos. Sejamos mães para Deus.

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