Sobre o amor aos animais

Não tem jeito: se você já amou um animal de estimação, em algum momento já desejou que ele fosse para o Céu. Mesmo que siga a mais ferrenha ortodoxia católica. Eu mesma já o desejei inúmeras vezes.

É um desejo razoável e compreensível: queremos rever aqueles que amamos em sua singularidade, em seus traços únicos, em sua “pessoalidade”. Nesse sentido, é muito difícil aceitar que um cãozinho não pode ter uma alma a ser salva, não tem personalidade, não tem pessoalidade, não é um ser racional à imagem de Deus. Apegamo-nos e nos apaixonamos pelo jeitinho único de nosso animal querido, pelo carinho que nos dispensa, e acabamos nos acostumando à idéia errada de que os bichos são uma espécie de criança peluda que come ração e nos faz companhia.

Pode parecer muito natural e até mesmo admirável considerar um gatinho ou cachorro como parte da família, afinal, assim como os filhos pequenos, eles demandam cuidados especiais, são espontâneos e inocentes- não têm a faculdade racional de um homem adulto- e alegram o lar. Por que, então, o cãozinho não pode ser salvo como a criança, se é tão bom e amoroso, tão protetor e fiel? A resposta que daremos é a mesma que responde à pergunta “Por que não se pode interromper a gestação de um bebê com Síndrome de Down?”: PORQUE A DIGNIDADE ONTOLÓGICA DO SER HUMANO É ABSOLUTAMENTE INEGOCIÁVEL.

 

 

Desde o século XIX, o utilitarismo filosófico sugere que o critério mais razoável para decidir acerca do respeito que devemos a qualquer pessoa, instituição ou teoria é o grau de prazer que ela é capaz de gerar ao maior número possível de pessoas. Nas últimas décadas, muitos autores têm desenvolvido o utilitarismo e tematizado o valor da vida em termos de prazer e dor, como os que defendem a legalização do aborto pelo suposto motivo de o feto, em fase embrionária, não ser capaz de sentir dor, causando, ao contrário, problemas e dores físicas/ emocionais à gestante que não o deseja- ou seja, ele deve perder a vida por gerar mais dor e menos prazer do que é capaz de sofrer.

De acordo com essa linha de raciocínio, a vida de um animal senciente tem tanto valor quanto a de um ser humano, já que ambos podem sentir dor e prazer em intensidade semelhante, bem como causá-los a outrem. E quando o critério de valoração não repousa sobre o binômio dor/prazer, a coisa fica muito pior: começa-se a eleger a racionalidade como parâmetro de dignidade- isto é, é mais digno de respeito o ser mais racional e inteligente- e então temos a triste situação de um portador de deficiências cognitivas graves ser comparado a um animal doméstico.

É inescapável: se não cremos em uma lei transcendente que postule, de forma definitiva e irrevogável, a superioridade ontológica do homem em relação a toda a natureza e sua dignidade como absolutamente incalculável e incomparável, entraremos em dilemas estúpidos, perigosos e francamente ridículos, como o proposto por grupos vegetarianos, que questiona a legitimidade do consumo de carne por pessoas adultas, alegando que não temos o direito de matar um animal para nos servir dele.

Os animais, mesmo os domésticos, não devem ser tratados como pessoas; trata-los dessa forma é um desrespeito à natureza humana e a própria natureza dos animais, que não foram criados por Deus para suprir a carência afetiva dos seres humanos nem para terem suas faculdades naturais forçadas para satisfazer donos ansiosos por ver neles algo semelhante a si próprios.

Penso que o afeto maravilhoso que recebemos de nossos bichinhos de estimação são uma demonstração da ternura de Deus, uma forma de nos instigar a cuidar de sua magnífica Obra e mostrar que Ele está sempre olhando por nós, ainda que seja num canto suave de pássaro. E essa Obra é perfeita e eterna, ainda que os animais não sejam imortais. Imortais somos nós. Nós e todo o amor que aprendemos deles e levamos conosco.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s