A Modéstia: Autêntica Vivência de Virtude

“Observando a modéstia, edificamos sumamente os outros e os estimulamos à prática da virtude.”
Santo Afonso de Ligório, Tratado da Castidade

Desde os tempos anteriores ao cristianismo, a filosofia buscava qualificar o ser humano
segundo virtudes perfeitas, as quais constituíam o acabamento nobre do homem,
partindo de uma visão puramente natural.

A inclinação ao bem, intrinsecamente presente
no ser humano, ainda não pudera ser dissociada das qualidades – virtuosas – que o
mesmo poderia ser capaz de alcançar por sua ascese.

A Revelação Divina comunicou graciosamente ao homem a existência das virtudes
sobrenaturais – ou teologais, que são sempre infusas – e morais, as quais podem ser
adquiridas pelas forças humanas sob o

auxílio da Graça.

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As virtudes morais são os frutos e os germes de actos moralmente bons e dispõem todas
as potencialidades do ser humano para comungar no amor divino (CIC, §1804).

“Tudo o que é verdadeiro, nobre e justo, tudo o que é puro, amável e de boa reputação, tudo o que é
virtude e digno de louvor, isto deveis ter no pensamento.”
(Fl 4, 8)

No entanto, qual seria a base de todas as virtudes morais e porquê a conquista não é tão
fácil?

A vida moral retamente conduzida pela prática das virtudes está sustentada pelos dons
do Espírito Santo. E estes, por sua vez, são disposições permanentes que tornam o
homem dócil aos impulsos do Amor Divino. Somente uma alma cativa é moldada com
as primícias da glória eterna: os “frutos do Espírito Santo”. A Tradição da Igreja
enumera doze: «caridade, alegria, paz, paciência, bondade, longanimidade, benignidade,
mansidão, fidelidade, modéstia, continência, castidade» (Gl 5, 22-23).

Os frutos do Espírito Santo, como sendo todos os atos últimos e deleitáveis das virtudes,
são todas as obras pelas quais nos comprazemos. Santo Tomás de Aquino afirma que
“todos os atos dos dons e das virtudes podem, com certa conveniência, ser reduzidos a
esses Frutos”.

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No entanto, vale ressaltar que os frutos do Espírito possuem finalidades distintas entre
si, no que diz respeito ao ordenamento da mente e dos sentidos. A caridade, alegria, paz,
paciência, longanimidade, benignidade, mansidão e fidelidade são atos provenientes da
busca pela unidade em Deus principalmente através do amor ao próximo.

Mas e em relação ao que lhe é puramente interior? Qual dos actos dos dons e das
virtudes engloba a ordenação das paixões ligadas ao corpo e alma do homem?

Ora, a fim de ordenar a mente quanto ao que lhe é inferior, em face do que lhe está em
volta, a modéstia cumpre em primeiro grau de importância tal atribuição. Sendo fruto
da temperança, atrelada à continência e a castidade, esta virtude auxilia no
comedimento do que é lícito e no combate ao ilícito.

A importância da modéstia para o ordenamento das paixões interiores precisa ser
compreendida de forma orgânica, do mesmo modo que as virtudes teologais ordenam a
natureza da alma. Assim, evita-se que a mesma seja confundida com um simples “estilo
de vida” ou mudanças vazias no comportamento ou no exterior.

É notório que a partir da queda, o pecado original tornou opaco o olhar humano. Ao
contemplar o outro, o olhar não recorda que está diante da imagem e semelhança de
Deus, passando a ver o outro como mero objeto. O pudor e a modéstia recordam que é
preciso esconder o corpo para mostrar a alma.

“O pudor e a modéstia são os irmãos menores da pureza.”
São Josemaria Escrivá, Caminho 129.

A pureza pressupõe a modéstia. Esta resigna a recusa da vaidade e a ordenação à
castidade, comprovando a delicadeza. Orienta os olhares e as atitudes em conformidade
com a dignidade das pessoas e com a união que existe entre elas.

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Para adquirir a virtude da modéstia não é necessário uma intervenção divina, mas
precisamente a reta intenção sustentada pela própria natureza humana. É uma conquista,
como qualquer virtude heróica, que exige autodomínio, disposição e equilíbrio.

Os vícios provenientes da falta de modéstia e pudor podem e devem ser combatidos,
basta ter em mente a humildade, a simplicidade e a justa diligência devidas ao cuidado
externo. O zelo a esta virtude é tão fundamental que, além de favorecer a comunhão
com Deus através da busca da humildade, aproxima o outro do céu, quando também é
afastado de suas paixões.

“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração.”
(Mt 11, 29)

Reconhecer-se humilde, portanto, significa que sua humildade é toda advinda de
instância superior. Exercitá-la é enxergar a própria pequenez e a assombrosa
misericórdia divina, uma verdadeira base para a conquista das demais virtudes.

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